Entre a sabedoria da criação, o testemunho das Escrituras e os ensinamentos dos povos que aprenderam a escutar a natureza
Vivemos numa época em que o ser humano possui um conhecimento sem precedentes. Exploramos os oceanos, observamos galáxias distantes, desenvolvemos tecnologias capazes de transformar profundamente o mundo em que vivemos. Contudo, por vezes, quanto mais aprendemos a dominar a natureza, mais nos afastamos da capacidade de a escutar.
E, no entanto, a natureza continua a falar.
Fá-lo sem discursos, sem ideologias e sem procurar convencer ninguém. Fala através do voo das aves, dos ciclos das estações, dos rios que seguem o seu curso e dos animais com quem partilhamos esta Terra. As suas lições permanecem diante dos nossos olhos, acessíveis a todos os que ainda conservam a capacidade de observar.
Os povos indígenas da Amazónia, os inuit das regiões árticas, numerosas tribos da Ásia, de África e da Oceania, bem como muitos outros povos tradicionais espalhados pelo mundo, compreenderam esta realidade de formas diferentes. Apesar das suas diferenças culturais, muitos partilham a consciência de que o ser humano não vive separado da natureza nem acima dela. Faz parte de uma teia de vida que o sustenta e à qual também pertence.
Curiosamente, esta visão encontra eco numa das mensagens fundamentais das Sagradas Escrituras. Ao contrário do que muitas vezes se afirma, a Bíblia não apresenta o Homem como proprietário absoluto da Terra. Pelo contrário, apresenta-o como administrador de uma criação que lhe foi confiada. A Terra pertence a Deus; ao ser humano cabe a responsabilidade de a governar com sabedoria, de cuidar dela e de prestar contas da forma como utilizou os dons que recebeu.
Foi precisamente esta reflexão que me ocorreu recentemente ao assistir a um vídeo onde um cão abandona momentaneamente a posição junto do soldado que acompanhava para impedir que uma criança desconhecida se aproximasse de um precipício.
À primeira vista, poderia tratar-se apenas de mais um vídeo comovente sobre a lealdade dos cães. Mas quanto mais pensava naquelas imagens, mais me parecia estar perante uma das muitas lições silenciosas da natureza.
O animal nada tinha a ganhar. A criança era uma desconhecida. Ainda assim, perante a fragilidade de um ser humano em perigo, agiu.
Os cães são talvez um dos exemplos mais evidentes desta capacidade de entrega. A sua fidelidade, a sua coragem e a confiança que depositam nos seres humanos levam muitos a chamá-los, com razão, de "anjos de quatro patas". Não raras vezes oferecem-nos uma lealdade que nós próprios temos dificuldade em oferecer uns aos outros.
Mas não são apenas os cães que nos ensinam.
Os gatos, com a sua independência e aparente distância, ensinam-nos a importância da observação, da paciência e do respeito pelos limites. E também eles demonstram, por vezes, uma coragem inesperada quando percebem que alguém necessita de proteção.
A vida selvagem continua a transmitir as suas próprias lições. Quem observa uma leoa a enfrentar um perigo para proteger as suas crias percebe que a verdadeira coragem não consiste em não sentir medo. Consiste em colocar o cuidado pelos outros acima do próprio medo.
Talvez seja precisamente esta a mensagem que a natureza continua a repetir ao homem de hoje. A grandeza não se mede pelo domínio que exercemos sobre os outros, mas pela responsabilidade que assumimos perante os mais vulneráveis. Não está na força que impomos, mas na proteção que oferecemos. Não está na posse, mas no cuidado.
Num tempo em que tantas vezes nos comportamos como donos da Terra, talvez fosse útil recordar que somos apenas administradores de passagem. Herdámos uma criação que não nos pertence e que, um dia, deixaremos às gerações seguintes.
Talvez as lições mais importantes não estejam escondidas em teorias complexas nem em discursos grandiosos. Talvez continuem onde sempre estiveram: na fidelidade de um cão, na coragem de uma leoa, na sabedoria silenciosa dos povos que vivem próximos da natureza e na própria criação, que continua a recordar ao Homem que ele não é dono da Terra, mas apenas seu guardião por um breve instante.

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