Uma lanterna numa gaveta. Um conjunto de pilhas suplentes. Algumas velas. Um rádio antigo. Algumas garrafas de água. Um pouco de dinheiro vivo para uma emergência.
Durante muito tempo, essas precauções pareceram excessivas aos olhos de algumas pessoas. Quantas vezes ouvi perguntas como: "Para que queres tanta água?" ou "Para que servem tantas pilhas?" Afinal, vivemos num país desenvolvido, com eletricidade, internet, supermercados e sistemas de pagamento eletrónico. Tudo parece estar sempre ao alcance de um clique.
Até ao dia em que deixa de estar.
Quando aconteceu o apagão que afetou a Península Ibérica, a realidade entrou pela porta dentro sem pedir licença. De repente, as tomadas deixaram de funcionar, os ecrãs apagaram-se e a normalidade que parecia garantida revelou-se mais frágil do que imaginávamos.
Foi então que me lembrei de uma coisa simples.
"Porque não ouves a rádio?", perguntei ao meu irmão.
A resposta veio acompanhada de alguma surpresa:
"Ah, pois é! Boa ideia!"
Minutos depois, estava a funcionar um rádio a pilhas com cerca de quarenta anos. Quarenta anos. Numa época dominada pelos smartphones, pelas aplicações e pela internet, foi aquele velho aparelho que nos permitiu acompanhar as notícias e perceber o que estava a acontecer.
Lembro-me de sorrir ao pensar na ironia da situação.
Passamos a vida convencidos de que as tecnologias mais recentes substituem tudo o que veio antes. Mas naquele momento, um rádio antigo tornou-se mais útil do que muitos equipamentos modernos dependentes de eletricidade, bateria ou rede móvel.
Meses depois, chegou outra lição.
A tempestade que varreu grande parte da zona centro do país deixou um rasto impressionante de destruição. Árvores arrancadas pela raiz, estradas intransitáveis, estruturas danificadas, localidades isoladas e milhares de pessoas sem eletricidade durante dias.
Onde vivo, a luz só regressou ao quarto dia.
Noutras zonas, a espera foi ainda mais longa.
Foi nessa altura que descobri uma falha na minha própria preparação. Tinha lanternas. Tinha pilhas. Tinha rádio. Tinha alguma autonomia. Mas não tinha água suficiente. Lá fui eu, juntamente com o meu irmão, comprar mais água enquanto ainda era possível.
Curiosamente, foi também nessa altura que deixei de ouvir comentários sobre o excesso de água armazenada ou o número de pilhas que tinha em casa.
A realidade tinha falado mais alto.
Talvez essa seja uma das características da natureza. Ela não discute. Não tenta convencer ninguém. Limita-se a mostrar-nos as consequências das nossas escolhas.
Por isso compreendo cada vez melhor porque razão países do norte da Europa e da Europa Central recomendam que as famílias tenham recursos suficientes para vários dias de autonomia. Não é alarmismo. Não é pessimismo. É prudência.
Muitas pessoas imaginam que a preparação para emergências é algo reservado a cenários extremos. Eu vejo-a de forma diferente. Trata-se apenas de reconhecer uma verdade simples: os sistemas podem falhar.
A eletricidade pode falhar.
As comunicações podem falhar.
Os pagamentos eletrónicos podem falhar.
E quando isso acontece, voltamos rapidamente às necessidades básicas que acompanharam todas as gerações que nos antecederam.
Água.
Luz.
Informação.
Alimentação.
Abrigo.
Talvez seja por isso que gosto tanto de ver vídeos de bushcraft e sobrevivência. Não porque deseje viver isolada numa floresta ou passar dias numa tempestade de neve. O que me fascina é a capacidade humana de se adaptar quando o conforto desaparece.
Observar alguém construir um abrigo, encontrar recursos e resolver problemas com meios limitados é, de certa forma, observar algo que a sociedade moderna foi esquecendo: a autonomia.
Não a autonomia absoluta, que é uma ilusão, mas aquela margem de independência que nos permite enfrentar uma adversidade sem entrar imediatamente em pânico.
Curiosamente, os últimos anos ensinaram-me que a preparação não é um destino. É um processo. Também eu tenho negligenciado um pouco o meu kit de emergência. Também eu encontrei falhas quando a realidade me colocou à prova.
Mas aprendi uma lição que dificilmente esquecerei.
Quando a luz se apaga, quando a tempestade chega ou quando os sistemas deixam de funcionar, são frequentemente as coisas mais simples que fazem a diferença.
Uma garrafa de água.
Um maço de pilhas.
Algum dinheiro vivo.
E, por vezes, um velho rádio de quarenta anos que permanece em silêncio durante décadas... até ao dia em que volta a falar.





