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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

A dignidade que renasce no silêncio

 


Há dias em que a violência não chega como grito, mas como sombra.

Não vem das mãos que conhecemos, mas de vozes que atravessam o portão da escola como quem atravessa uma fronteira sem pedir licença.

Nesse dia, fui atingida por palavras que não me pertenciam. Palavras que não falavam de mim, mas do medo, da raiva, da desordem interior de quem as lançou. E, no entanto, ficaram presas ao meu corpo como se fossem minhas.

O que mais dói não é a agressão em si. É o silêncio que a segue. O virar de costas. A normalização. A sensação de que, num lugar que deveria ser de cuidado, a dignidade pode ser deixada cair no chão sem que ninguém se incline para a levantar.

Mas Deus inclina-se. Inclina-se sempre.

Inclina-se através das duas colegas que me escutam, que me devolvem o nome, que me lembram que não estou sozinha. Inclina-se no gesto simples de quem diz: “Eu vi. Eu estou contigo.” Inclina-se na força que nasce quando uma mulher apoia outra, quando a dor de uma se torna responsabilidade de todas.

E é nesse movimento silencioso que a dignidade regressa. Não como triunfo, mas como semente. Uma semente pequena, discreta, que insiste em germinar mesmo em solo duro.

Hoje percebo que recuperar a dignidade não é apagar o que aconteceu. É reocupar o espaço interior que a agressão tentou roubar. É voltar a respirar com o peito inteiro. É reconhecer que a violência não tem a última palavra — porque a última palavra pertence sempre ao cuidado, à verdade, à luz que se acende quando alguém escolhe não abandonar.

E assim sigo. Com feridas, sim. Mas também com uma certeza: a dignidade renasce sempre que alguém escolhe permanecer humana num lugar onde tantos escolhem ser indiferentes.

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