Há um momento do dia que não pertence totalmente a nenhum dos lados.
Não é mais trabalho, ainda não é noite. É um intervalo suspenso, quase secreto, onde o mundo abranda e a alma encontra espaço para respirar.
Chegamos a casa com o peso suave das horas nos ombros. O sol desce devagar, como se também ele estivesse a fechar o seu próprio expediente. A luz torna‑se mais baixa, mais dourada, mais íntima. E nesse instante — tão breve e tão profundo — algo dentro de nós muda de ritmo.
É o momento em que deixamos o trabalho para trás e recuperamos o nosso nome interior. O silêncio que acompanha o pôr do sol não é ausência: é presença. É como se o mundo dissesse, com uma delicadeza antiga: “Agora podes voltar a ti.”
Neste intervalo entre dois mundos, vemos tudo com outros olhos — não os olhos cansados do dia, mas os olhos da alma, que só se abrem quando o ruído se retira. É um tempo de reconciliação: entre o que fizemos e o que somos, entre o que o mundo pede e o que o coração precisa.
Talvez seja por isso que o fim da tarde tem algo de mágico. Não exige nada. Não apressa. Apenas convida.
Convida‑nos a pousar as chaves, a pousar o corpo, a pousar o pensamento. Convida‑nos a olhar o céu como quem olha um espelho. Convida‑nos a regressar — devagar, com humildade, com verdade.
E é nesse regresso silencioso que reencontramos a nossa própria casa interior.

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